
À medida que a eleição se aproxima, cresce também a quantidade de pesquisas eleitorais divulgadas. Institutos, veículos de comunicação, partidos e campanhas passam a acompanhar cada movimento das intenções de voto. E, nesse ambiente, surge com mais força uma expressão bastante conhecida: o voto útil.
Na ciência política, o chamado voto útil é conhecido como voto estratégico. Ele acontece quando o eleitor deixa de votar naquele que seria sua primeira preferência para escolher outro candidato que considera mais competitivo, normalmente com o objetivo de impedir a vitória de uma candidatura que rejeita ou de tentar definir a eleição já no primeiro turno. Estudos sobre comportamento eleitoral mostram que as pesquisas podem fornecer ao eleitor informações sobre quais candidaturas parecem mais competitivas e, dessa maneira, participar desse cálculo estratégico.
Por isso, nas últimas semanas de campanha, os números ganham enorme importância política. Campanhas podem destacar pesquisas favoráveis para transmitir uma percepção de crescimento, competitividade ou possibilidade de vitória e, com isso, tentar atrair eleitores indecisos ou aqueles que pensam em abandonar candidaturas menos competitivas. Isso não significa, porém, que toda pesquisa seja publicada com a finalidade de provocar voto útil, nem que o eleitor automaticamente siga quem aparece na frente. Pesquisas são também instrumentos legítimos de informação e análise da opinião pública.
É justamente nesse momento que o eleitor precisa compreender como uma pesquisa deve ser lida.
Primeiro, a margem de erro. Imagine uma pesquisa na qual um candidato apareça com 40% e a margem de erro seja de dois pontos percentuais. A estimativa deve ser interpretada levando em conta uma faixa de incerteza em torno daquele percentual. Portanto, pequenas diferenças entre candidatos precisam ser analisadas com cautela. A margem de erro existe porque a pesquisa entrevista uma amostra do eleitorado, e não todos os eleitores.
Outro conceito fundamental é o nível de confiança. Quando uma pesquisa apresenta, por exemplo, nível de confiança de 95%, isso está relacionado à precisão estatística do método de amostragem. Em termos simplificados, significa que, se pesquisas equivalentes fossem repetidas muitas vezes seguindo a mesma metodologia, aproximadamente 95% dos intervalos calculados dessa forma conteriam o valor verdadeiro da população. O IBGE ressalta que pesquisas amostrais carregam erro amostral e que medidas de precisão são essenciais para interpretar corretamente seus resultados.
Mas atenção: 95% de confiança não significa que a pesquisa tem 95% de chance de acertar o resultado da eleição. Pesquisa eleitoral não é profecia. Ela registra as declarações dadas pelos entrevistados durante determinado período. Até o dia da votação, eleitores podem mudar de opinião, indecisos podem escolher um candidato, pessoas podem deixar de votar e acontecimentos políticos podem modificar o cenário.
Também é importante entender que a confiabilidade de uma pesquisa não depende apenas da margem de erro. É necessário observar quem realizou, quem contratou, quantas pessoas foram entrevistadas, quando ocorreu o trabalho de campo, como a amostra foi distribuída, quais ponderações foram utilizadas e qual foi a metodologia aplicada. Para as Eleições de 2026, o TSE exige o registro prévio das pesquisas destinadas à divulgação pública, incluindo informações como contratante, metodologia, período de realização, plano amostral, nível de confiança e margem de erro.
E existe ainda outro cuidado: duas pesquisas realizadas por institutos diferentes podem apresentar resultados distintos sem que necessariamente uma delas esteja errada. Elas podem ter sido realizadas em dias diferentes, utilizar amostras, métodos de coleta, questionários e critérios de ponderação diferentes. Por isso, muitas vezes é mais prudente observar a tendência de várias pesquisas ao longo do tempo do que transformar um único levantamento em verdade absoluta.
Quanto mais próxima a eleição, maior tende a ser a atenção dada às pesquisas e maior pode ser sua participação no cálculo do chamado voto útil. Um eleitor que vê seu candidato distante dos primeiros colocados pode decidir permanecer com sua escolha original ou migrar para uma candidatura considerada mais competitiva. Essa é uma decisão individual, e pesquisas podem ser uma das informações utilizadas nesse processo. Estudos sobre eleições brasileiras identificam justamente a relação entre informações sobre competitividade e mudanças estratégicas de voto próximas ao pleito.
Portanto, pesquisa eleitoral deve ser analisada como fotografia de um determinado momento, dentro de limites estatísticos e metodológicos. Ela ajuda a compreender o cenário, mas não substitui a urna. Entre percentuais, manchetes e disputas pela narrativa do voto útil, a informação mais importante continua sendo esta: pesquisa mede intenção de voto; quem decide a eleição é o eleitor quando deposita seu voto na urna.
Por Oscar Mariano












