
Usina de Arte: a construção de uma utopia | 10 anos, coedição da Cepe e Usina de Arte, será lançado na ART.PE, na quinta-feira (15)
Há uma década, uma antiga usina de açúcar começou a escrever um novo capítulo de sua história. Localizada em Água Preta, município da Zona da Mata Sul de Pernambuco, a Usina Santa Therezinha, que chegou a ser uma das maiores do setor sucroalcooleiro do país, transformou-se em um espaço dedicado à arte contemporânea, à educação e à preservação da natureza. Ali nasceu a Usina de Arte, museu a céu aberto que, em dez anos, vem produzindo impactos culturais, sociais, ambientais e econômicos na região. Essa trajetória é contada no livro Usina de Arte: a construção de uma utopia | 10 anos, de Bruno Albertim, coedição da Cepe e Usina de Arte. O lançamento acontece na 5ª ART.PE – Feira de Arte Contemporânea de Pernambuco, quinta-feira (15), às 17h30, no Recife Expo Center.
Instalada em 64 hectares (área equivalente a 90 campos de futebol), a Usina de Arte é uma experiência rara de reconversão de um patrimônio industrial pela cultura. Ao longo de dez anos, ultrapassou a condição de projeto cultural regional e adquiriu relevância nacional, utilizando a cultura como estratégia de desenvolvimento territorial, estabelecendo ações de acesso à arte, educação, inovação, recuperação ambiental e empreendedorismo local. Além do museu a céu aberto, hoje contando com mais de 50 obras e instalações de artistas brasileiros e internacionais de projeção (Marina Abramović, Juliana Notari, Paulo Bruscky, Regina Silveira, Carlos Garaicoa, entre outros), a instituição mantém biblioteca, escola de música, laboratório de fabricação digital, parque botânico, atividades formativas, programa de bolsas universitárias e um festival anual que reúne artes visuais, música, cinema, teatro e literatura.
O Festival Arte na Usina está diretamente ligado à criação do empreendimento cultural. Foi a partir de sua primeira edição, em 2015, que os empresários Ricardo Pêssoa de Queiroz e Bruna Simões, ao lado de 40 moradores da comunidade, deram início a caminhada com a criação Associação Socioambiental e Cultural Jacuípe. A partir de 2016, as primeiras residências artísticas foram iniciadas e definido o conceito artístico da Usina, inspirado na land art: no lugar de galerias fechadas, obras espalhadas pelo espaço aberto, em diálogo com a natureza. O projeto contou com a participação de artistas como o paraibano José Rufino, primeiro curador da Usina (função atualmente exercida pelo francês Marc Pottier). A parceria com o Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM) possibilitou o comissionamento das primeiras obras (feitas especialmente para o museu) de Paulo Bruscky, Paulo Meira, Márcio Almeida e Marcelo Silveira.
A recuperação ambiental foi uma prioridade do casal, que convidou o mineiro Eduardo Gonçalves, paisagista e então curador botânico do Instituto Inhotim (MG). Coube a ele transformar a terra arrasada pela exploração da cana em espaço vivo com mais de mil espécies vegetais, nativas ou exóticas. “A antiga usina que deixou de moer cana e produzir açúcar hoje produz criatividade, conhecimento, encontros, beleza e esperança”, destacam Bruna Simões e Ricardo Pêssoa de Queiroz na apresentação do livro.
Impacto social – Com 304 páginas e 148 fotos, o livro revela a dimensão da Usina enquanto centro de fomento de arte contemporânea fora do eixo Rio-São Paulo, mas, sobretudo, de que forma a cultura é vetor de mudança da realidade de uma região historicamente marcada por baixos indicadores sociais. A comunidade, que durante décadas teve a vida organizada pela economia da cana, e que sofreu com o fechamento da usina (1998), foi envolvida, estimulada a empreender e a permanecer no território, ficando à frente de pousadas, restaurantes, entre outros negóciosfamiliares criados.
“Pernambuco, por muito tempo, foi um celeiro apenas de uma arte moderna e figurativa. O Brasil não tinha conhecimento da arte contemporânea, que questiona as formas tradicionais de estética e tensiona questões da atualidade. Temos na Usina de Arte um local importante para a consolidação, o desenvolvimento da poética artística contemporânea em Pernambuco. Com nomes fundamentais na escritura de uma arte local, nacional e mundial, como Marina Abramović e Juliana Notari, que com a obra Diva, uma vulva encravada na montanha, colocou a Usina no debate mundial, numa época de polarização política e, sobretudo, moral”, destaca Bruno Albertim.
Sobre o autor – Bruno Albertim é jornalista, curador e antropólogo pernambucano. É autor, entre outros trabalhos, dos livros Tereza Costa Rêgo – Uma mulher em três tempos (Cepe, 2018) e Pernambuco Modernista (Cepe, 2022). Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo 2013, com o especial Nordeste – Identidade Comestível, na categoria Norte-Nordeste.











