O partido invisível: quase 40 milhões de brasileiros podem não escolher ninguém em 2026

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Por que as abstenções, os votos brancos e os votos nulos representam um dos maiores desafios da democracia brasileira? Quando se fala em eleição, a atenção quase sempre está voltada para quem ganhou, quem perdeu, quem cresceu nas pesquisas e quem pode chegar ao poder.

Mas existe um fenômeno eleitoral silencioso que deveria preocupar partidos, candidatos e toda a sociedade brasileira: o enorme número de eleitores que não comparecem às urnas ou que comparecem, mas decidem não escolher nenhum candidato. Nas eleições presidenciais de 2022, o Brasil viveu uma das campanhas mais polarizadas de sua história. A disputa entre Lula e Bolsonaro dividiu famílias, mobilizou militantes, dominou as redes sociais e ocupou praticamente todo o debate político nacional. Mesmo assim, milhões de brasileiros ficaram fora da escolha direta entre os dois candidatos.

Segundo os dados oficiais da Justiça Eleitoral, no segundo turno de 2022 o Brasil tinha 156.454.011 eleitores aptos. Desse total, 32.200.558 pessoas não compareceram para votar, representando 20,59% do eleitorado. Entre aqueles que compareceram às urnas, outros 3.930.765 eleitores votaram nulo, enquanto 1.769.678 votaram em branco. Somando esses números, chegamos a uma constatação impressionante: 37.900.000 brasileiros, aproximadamente, não participaram da escolha válida entre os dois candidatos que disputavam a Presidência da República.

É verdade que não se pode afirmar que toda abstenção representa protesto ou descrédito na política. Existem problemas de saúde, dificuldades de deslocamento, questões pessoais e diversas outras razões que levam um cidadão a não comparecer para votar. Da mesma forma, o voto branco ou nulo pode ter diferentes motivações. Mas seria um grave erro político ignorar o significado desses números. Quando dezenas de milhões de pessoas deixam de participar diretamente da escolha dos governantes, a política precisa fazer uma pergunta importantíssima: Por que tanta gente não se sente motivada a participar plenamente do processo democrático?

O Tribunal Superior Eleitoral divulgou que o Brasil terá 158.745.463 eleitores aptos a votar nas eleições de 2026, um crescimento de mais de 2,2 milhões de eleitores em relação ao pleito de 2022. Desta forma, caso os percentuais registrados no segundo turno de 2022 fossem repetidos em 2026, teríamos aproximadamente:

• 32,7 milhões de abstenções;
• 5 milhões de votos nulos;
• 2,3 milhões de votos em branco.

Isso representaria um universo próximo de 40 milhões de manifestações eleitorais fora da escolha válida entre os candidatos. É importante deixar claro: isso não é uma previsão do resultado eleitoral de 2026, mas uma projeção matemática baseada nos percentuais oficiais registrados em 2022 e no atual tamanho do eleitorado brasileiro. Os números reais dependerão da mobilização política, das campanhas, das condições sociais, da polarização, do interesse do eleitor e das alternativas apresentadas ao país. Mas a projeção serve como um alerta!

Estamos falando de um contingente eleitoral que seria maior do que a população de muitos países e capaz de alterar profundamente qualquer leitura política sobre a vontade popular. Olhando esses números podemos afirma que a política brasileira está acostumada a disputar os eleitores que já têm lado. São as bases partidárias, os militantes, os grupos ideológicos e aqueles que acompanham diariamente o debate político. Mas existe um enorme grupo que parece cada vez mais distante.

É o cidadão que olha para os políticos e não enxerga mudança, é aquele que escuta promessas em todas as eleições e, depois de quatro anos, continua enfrentando os mesmos problemas, é o trabalhador que espera atendimento na saúde, a família que teme a violência, é o jovem que procura emprego, o cidadão que vê a política como uma disputa permanente pelo poder, enquanto seus problemas continuam esperando solução. A indignação, muitas vezes, não aparece em discursos ou manifestações. Ela aparece no silêncio, na ausência, no voto nulo ou voto em branco. No eleitor que simplesmente deixa de acreditar que sua participação fará alguma diferença.

O Brasil possui um sistema eleitoral consolidado, e o voto obrigatório garante uma participação formal expressiva, mas existe uma diferença fundamental entre comparecer à urna e acreditar verdadeiramente na política. O cidadão pode votar e, ainda assim, estar profundamente decepcionado; pode escolher um candidato apenas por considerar o outro pior ou simplesmente votar sem esperança de que algo realmente mudará. É preciso também olhar com atenção para aqueles cidadãos que, por diferentes razões, vêm se afastando do processo político ou demonstrando desinteresse, frustração e falta de confiança nas opções que lhes são apresentadas. Se os percentuais registrados em 2022 se repetirem em 2026, o Brasil poderá se deparar com um contingente próximo de 40 milhões de eleitores entre abstenções, votos brancos e nulos. Um número expressivo demais para ser ignorado e que deve ser compreendido como um verdadeiro alerta nacional para a classe política e para o fortalecimento da própria democracia brasileira.

Esse é, talvez, o maior “partido invisível” do Brasil: um contingente que não tem presidente, não possui uma única bandeira e, muitas vezes, simplesmente não se sente representado por ninguém, mas que reúne milhões de brasileiros afastados, frustrados ou não convencidos pelas opções que a política lhes apresenta. E essa deveria ser uma das principais preocupações de todos os candidatos: como convencer o brasileiro de que ainda vale a pena acreditar na política? Vencer uma eleição é importante, mas muito mais importante para o futuro da democracia é fazer o cidadão voltar a acreditar que seu voto pode produzir mudanças reais.

Afinal, o eleitor pode até comparecer à urna, mas não pode ser obrigado a confiar ou acreditar em quem faz política. Em 2026, enquanto os candidatos disputarão cada voto válido, será igualmente fundamental olhar para os milhões de brasileiros que ainda precisam ser reconquistados pela esperança, pela credibilidade e por uma política que volte a fazer sentido na vida real das pessoas.

Oscar Mariano

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